Halu Gamashi
A ironia deixa como herança a sua liberdade.
A liberdade irônica é como um céu de espinhos, um mar de fogo, um rio de
piranhas e todo e qualquer lugar onde a vida imita a morte.
A ironia deixa o seu testamento e deixa para os cínicos a tristeza
irônica. A ironia desta tristeza é porque as lágrimas e as dores
pertenciam a alguém que o irônico sabotou para si.
Na irônica tristeza a vítima é o algoz e o antes algoz, agora vítima,
chora e sofre a sua sabotagem.
A ironia deixa o seu testamento, parte em busca do mais belo por do sol,
mais belo que o sol. A ironia é que este sol mais belo não nasce, não se
põe, não faz o seu ocaso.
O por do sol irônico, do mais belo por do sol, nasce da alegre vingança
perversa de encontrar o mais belo para vingar o ontem e ele sempre se põe
no amanhã. Não existe o hoje no por do sol mais belo que o sol no
testamento da ironia.
A sua reza santa é a dissimulação da verdade transformando-a em maquiagem
da fé de um poder emanado pelo ressentimento que a tudo maldiz bendizendo
com a sua irônica reza.
A ironia é companheira do cinismo e, o irônico desta parceria, é que de
fato os parceiros não existem porque não resistem a verdade.
O cinismo e a ironia já iniciam a sua parceria sem nenhum compromisso
porque nas suas inexistências sabem que a irônica ironia e o cínico
cinismo jamais formariam a aliança por total falta de mútua confiança.
O bom da ironia, verdadeiramente, é o seu testamento que deixa como
herança uma dor que nunca existiu, ressentimentos que respondem sob a
alcunha do amor e o irônico é que não há quem queria receber esta herança.
Quem há de merecê-la? Quem há de precisar?
Não existe atração, frequência, sintonia e sincronicidade nos terrenos da
ironia.
A ironia reina o dia de amanhã, mas quando o por do sol deste dia
amanhece os seus primeiros raios já não encontram a ironia porque ela já
caminha em direção ao por do sol mais belo que o sol.
Halu Gamashi
17/04/2012 7h